Coração de Mãe

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Quem anda muito nos trilhos sempre ouve essa expressão: “trem lotado é como coração de mãe, sempre cabe mais um”.

E na proximidade do Dia das Mães é que dedico essa história para a mãe de uma das personagens mais marcantes dessa vida dos trilhos, aFranciscléia de Jesus.

Sua mãe é uma mulher de fibra. Sempre sustentou a casa sozinha e trabalhava muito longe, utilizando os trilhos como seu transporte principal. Seu nome:Claudynárah.

Talvez pela sua personalidade muito forte, arrumava algumas confusões sempre que vinha trabalhar.

Ela era sacoleira e muitas vezes tentava vender seus produtos de beleza nos vagões e fugia do´rapa´ em várias ocasiões. Só aí, já era um caos.

Sem papas na língua, quando avistava um possível lugar entre dois marmanjos folgados e de pernas abertas, sentados nos bancos do trem, sem pedir licença, só vinha de retaguarda até se espremer no meio deles e muitas vezes falava para os homens: ‘lugar de se esparramar é no sofá de casa!’

Adorava um pagode! Fazia parte da turminha de música que existia nos potoques antigos e soltava a voz numa desafinação ímpar, por todo o trecho percorrido.

E quando alguém gritava: ´ô dona, nem no banheiro tem jeito!´, ela sorria e aí, cantava mais alto ainda.

O povo, vencido, quando via já tava cantando junto com ela.

Antigamente, era assim. Não se tinham denúncias como hoje em dia e por isso, esses comportamentos não eram vistos como mal educados. No fim das contas, faziam parte do contexto.

Lembro-me o dia em que ela cantava Galopeira e sua dentadura pulou da boca percorrendo todo o vagão. Por sorte, conseguiram achar.

Lascou um pouco, na beirada de um dente, mas ela sempre teve muita fé em Deus e por isso, agradeceu o que poderia ter sido pior.

Voltava muito tarde do trabalho e durante a viagem, sempre tinha uma marmitinha reserva para comer no caminho.

Estourada, mas não egoísta, sempre compartilhava seus sanduíches de mortadela.

O cheiro se espalhava e a galera toda já sabia de onde.

Velhos tempos! Velha farra! E hoje, quem era daquela época, nunca se esquece dessa senhora barraqueira, mas com um coração enorme.



 

 

 

 

 

 

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